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Perspectiva

O Programa de Pós-Graduação em História Comparada funciona no IFCS da UFRJ, desde 2002, com o apoio da Pró-Reitoria de Ensino para Graduados e Pesquisa da UFRJ. Foi credenciado pela Capes em 21 de maio de 2004 e devidamente reconhecido pelo MEC em 10 de novembro de 2004.

Nas primeiras décadas do séc. XX, Davillé [1] e Febvre [2] apresentaram a possibilidade de usar o método comparativo na História, superando a concepção tradicional baseada na singularidade do fato político. Inserido neste contexto, Bloch [3] definia que a comparação explicaria as semelhanças e diferenças entre duas séries de natureza análoga, mas de meios sociais distintos. Como objeto de aplicação deste método, elegeu sociedades que eram vizinhas e contemporâneas, sofriam "influência uma da outra" e remontavam parcialmente a uma "origem comum" [4]. A proposta de Bloch, próxima do comparativismo de Durkheim, trazia uma perspectiva histórica mais ampla, extrapolando os estudos locais, característicos da tradição historiográfica francesa. Este método comparativo tinha o mérito de afastar o estudioso de seu próprio ponto de observação e permitir a passagem da descrição à explicação de processos históricos, sistematizando conhecimentos. Entretanto, a História Comparada de Bloch atinha-se às fronteiras políticas e a uma mesma temporalidade. A maioria dos estudos históricos comparativos ainda segue neste sentido, "comparando-se o comparável", ou seja, privilegiando sociedades vizinhas de mesma natureza e coetâneas.

O comparativismo de Bloch se distinguia daquele de Weber para as Ciências Sociais, que cotejava traços de um período com os de outros, objetivando ver o que não estava lá, a ausência específica. Comparava aspectos parciais e selecionados dos processos em confronto, mesmo que distantes temporalmente, a partir de probabilidades típicas de acontecer (e eventualmente da formulação de tipos ideais). Esta abordagem envolvia, portanto, sociedades francamente heterogêneas e/ou muito afastadas temporalmente, procurando o peculiar e não o comum a várias ou a todas as configurações históricas.

Havia o receio de que a História Comparada resultasse numa abstração excessiva, caso tornasse tudo passível de confrontação independentemente de tempo/espaço, negando justamente o que é caro aos historiadores: privilegiar a singularidade e a temporalidade dos fenômenos sociais. O uso inadequado da comparação levaria a anacronismos quando confundisse analogias superficiais com similitudes profundas e desconsiderasse as especificidades das sociedades, como foi criticado por Febvre [5] nas obras de Spengler e Toynbee.

Corria-se ainda o risco de etnocentrismo pois, muitas vezes, considerava-se o Ocidente como norma da qual divergiriam as outras culturas. Daí, a cautela em relação ao comparativismo em História.

Entretanto, aspectos favoráveis foram levantados. Cardoso e Pérez Brignoli [6] afirmam que o impulso da História Comparada deveu-se principalmente ao estabelecimento de um contato mais aprofundado com as Ciências Sociais, para as quais a construção do objeto implicava em comparação; ao desenvolvimento da História em diversos países no pós-Segunda Guerra, ampliando as possibilidades de verificação de hipóteses; e ao sucesso alcançado por estudos comparativos, sensíveis às especificidades dos elementos analisados e com maior rigor teórico-metodológico. Estes historiadores destacam ainda outros pontos positivos deste tipo de abordagem como, por exemplo, o rompimento com um dos legados da historiografia do séc. XIX - a concepção das fronteiras políticas nacionais como unidades naturais de estudo - e concomitantemente a disponibilização de ferramentas para a distinção das singularidades de um objeto situado numa tipologia, destacando-se quer os traços comuns quer os traços incidentais no conjunto dos objetos comparados.

Assim, a partir de meados do séc. XX, com a fragmentação do mundo contemporâneo e a crítica à concepção evolucionista / progressista da História, abriram-se novos caminhos ao método comparativo. O desenvolvimento da Arqueologia, Antropologia e Semiótica, dentre outros, propiciou uma visão distinta das sociedades a partir de problematizações comuns, encontrando-se respostas diferentes. Isto foi possível no contexto da crítica aos paradigmas iluministas, com a desconstrução de hierarquias culturais e visões etnocêntricas, viabilizando epistemologicamente "comparar o incomparável". Tal é a proposta de História Comparada apresentada por Vernant e Detienne e adotada pelo PPGHC.